A LITURGIA CONTINUA, HOJE, A OBRA DA SALVAÇÃO.

Deus carrega em seu coração misericordioso um só desejo: salvar. Para conseguir isso, ele acompanha toda a história da humanidade, especialmente aquela de Israel, seu povo eleito, comunicando-se com os homens e as mulheres, sobretudo por meio dos profetas. Quando, porém, chegou a “plenitude dos tempos” ele nos enviou o seu próprio Filho, nascido de mulher (Gl 4,4).  Em seu Filho Jesus Cristo, afirmamos com fé, Deus quis “ficar muito perto de nós, vivendo conosco” nele e “falando conosco por ele” (Oração Eucarística 5). Assim, toda a ação que Deus realizou no Antigo Testamento para salvar a humanidade chegou à sua plenitude em Cristo, especialmente pelo “mistério pascal da sua bem-aventurada Paixão, Ressurreição dos mortos e gloriosa Ascensão” (SC 5).

E, com a Tradição da Igreja, reconhecemos que do peito traspassado de Cristo Crucificado “nasceu o sacramento admirável de toda a Igreja” (Santo Agostinho). E, ela, a Igreja – nascida na Paixão do Senhor e manifestada ao mundo em Pentecostes –, desde então, jamais deixou de se reunir para celebrar o mistério Pascal de seu Senhor: “lendo «o que a ele se referia em todas as Escrituras» (Lc 24,27), celebrando a Eucaristia, na qual «se torna presente o triunfo e a vitória da sua morte», e dando graças «a Deus pelo seu dom inefável (2Cor 9,15) em Cristo Jesus, «para louvor da sua glória» (Ef 1,12), pela virtude do Espírito Santo” (SC 6). Desse modo, a obra da salvação continua na Igreja pela Liturgia.

O número 7 da Sacrosanctum Concilium nos ajuda a compreender melhor essa realidade salvadora: para salvar, Cristo está presente em sua Igreja, e age de modo especial na Liturgia.

Cristo está sempre presente em sua Igreja. Acreditamos, pois, como Igreja, que é Cristo quem, no Espírito Santo, continua a realizar em nós a salvação. Ele realiza essa sua obra estando “sempre presente na sua Igreja, especialmente nas ações litúrgicas. Está presente no sacrifício da Missa, quer na pessoa do ministro […] quer, sobretudo sob as espécies eucarísticas. Está presente com o seu dinamismo nos Sacramentos, de modo que, quando alguém batiza, é o próprio Cristo que batiza. Está presente na sua palavra, pois é Ele que fala ao ser lida na Igreja a Sagrada Escritura. Está presente, enfim, quando a Igreja reza e canta, Ele que prometeu: «Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles» (Mt 18,20)”.

Cristo une a si a Igreja. “Em tão grande obra, que permite que Deus seja perfeitamente glorificado e que os homens se santifiquem, Cristo sempre associa a si a Igreja, sua esposa muito amada, a qual invoca o seu Senhor e por meio dele rende culto ao Eterno Pai”.

Liturgia. A Liturgia é, portanto “o exercício da função sacerdotal de Cristo”. Nela, os sinais sensíveis significam e, cada um à sua maneira, realizam a santificação dos homens; na Liturgia, o Corpo Místico de Jesus Cristo – Cabeça e membros – presta a Deus o culto público integral.

Portanto, toda celebração litúrgica é, por ser obra de Cristo sacerdote e do seu Corpo que é a Igreja, ação sagrada par excelência, cuja eficácia, com o mesmo título e no mesmo grau, não é igualada por nenhuma outra ação da Igreja.

Para concluir, quero retomar a oração que se reza na Quinta-feira Santa: “Concedei-nos, ó Deus, a graça de participar dignamente da Eucaristia, pois todas as vezes que celebramos esse sacrifício, em memória do vosso Filho, torna-se presente a nossa redenção”. Celebrar é, portanto, ter a possibilidade de participar do mistério da salvação que se torna presente “hoje”, para cada um dos filhos e filhas de Deus, reunidos em assembleia litúrgica.

+ Edmar Peron

Bispo de Paranaguá