Paróquia de Nossa Senhora do Rosário de Paranaguá – Catedral Diocesana

(Pe. Dr. André Luís Buchmann de Andrade)

Inícios em Paranaguá e origem da devoção

Assim como é impossível falar da Diocese de Paranaguá sem tratar da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, é também impossível escrever sobre os inícios do povoamento de nossa querida cidade sem citar a devoção à Nossa Senhora do Rosário e a construção da primeira capela a ela dedicada.

Conta-nos o Dr. Anníbal Ribeiro Filho[1], nos seus escritos por ocasião do 4º. Centenário de inauguração da primeira Igreja do Rosário qu
e o povoamento do litoral do Estado do Paraná aconteceu nas décadas de 1550 e 1560. Os colonizadores vieram de Cananéia e São Vicente e se localizaram em vários pontos da baía de Paranaguá constituindo um arraial próximo ao continente na Ilha da Cotinga[2].

Entre 1575 e 1580 os colonizadores transferiram-se para a margem esquerda do rio Itiberê formando o primeiro povoado do atual estado do Paraná.

“Tratando-se de portugueses, espanhóis e seus descendentes, todos católicos, nada mais natural que cogitassem de prover o novo aglomerado humano, de autoridade eclesiástica e construíssem um templo dedicado ao culto do orago escolhido – Nossa Senhora do Rosário – o que sucedeu em 1578, pela necessidade de socorros espirituais a uma população de três a cinco mil almas disseminadas pelo povoado, e sítios marginais da baía e rios que nela desaguam”[3].

Vieira dos Santos afirma que

“por constar que antes do ano de 1578 já muito se trabalhava nas minas de ouro, e tantos povos que então nelas trabalhavam, sendo católicos romanos, não haviam de estar sem terem uma igreja e sacerdote que lhe administrassem os necessários sacramentos; mas não há nenhuma certeza da memória do ano de sua fundação, nem dos capelães que a paroquiaram até o ano de 1655, mas consta de um antigo livro de vereanças que no ano de 1661, a igreja precisava de reparação e para esse fim a Câmara fez uma vereança geral no dia 1º. De outubro daquele ano, convidando os cidadãos para se tratar do mesmo reparamento, pela grande necessidade que havia de se fazer por conseqüência a igreja já deveria contar a idade de oitenta a cem anos”[4].

O aumento da população de nosso litoral em tão poucos anos deveu-se a vários fatores. O Brasil era ainda uma novidade para muitos europeus especialmente portugueses e espanhóis que para cá vinham em busca de riquezas. O ouro era a principal riqueza buscada[5]. Outro fator foi o comércio já existente desde 1554 entre santistas e o porto de Paranaguá e algumas relações de amizade e escambo com os índios carijós acabou por atrair interessados de Santos e do Rio de Janeiro[6].

A primeira Igreja de Nossa Senhora do Rosário que começou a ser construída em 1575. Os jesuítas de Cananéia e São Vicente vinham catequizar os índios da grande nação carijó que habitavam o litoral. A Capela estava então assistida pela Paróquia de Cananéia e sob jurisdição eclesiástica do Bispado de São Sebastião do Rio de Janeiro[7].

Mas por quê a escolha de Nossa Senhora do Rosário como padroeira da primeira Igreja do litoral do atual Estado do Paraná?

Sabemos que todas as escolhas de nomes de padroeiros estão relacionadas a lembranças afetivas, a devoções muito difundidas, a fatos históricos marcantes ou a novos momentos vividos pela Igreja. Numa mescla de todos estes elementos usou-se uma devoção recente para nomear a Capela dedicada a Maria Santíssima em solo paranaense. Convém que tratemos, ainda que rapidamente da famosa Batalha de Lepanto travada no dia 07 de outubro de 1571 no largo da Ilha de Chipe, na Grécia.

No ano de 1570 os turcos otomanos invadem a Ilha de Chipre, até então em posse da República de Veneza. Os venezianos já estavam enfraquecidos pois lutavam a anos sem sucesso contra os turcos. Pediram, então, ajuda para os turcos não dominassem o Mediterrâneo uma vez que possuíam esta Ilha em lugar estratégico.

Pio V, atendendo ao pedido dos venezianos reuniu esquadra de duzentas e oito galés e seis galeotas das marinhas da República de Veneza, do Reino de Espanha, dos Cavaleiros de Malta e dos Estados Pontifícios sob o comando de João da Áustria formando a chamada Liga Santa.

A frota desta liga enfrentou duzentos e trinta galés turcas no largo de Lepanto, na Grécia no dia 07 de outubro de 1571 num combate que durou somente três horas. Os turcos tiveram perdas ou captura de cento e noventa galés e os cristãos somente doze navios. Esta batalha pôs fim a ameaça marítima turca para a Europa[8].

E por que os católicos venceram a batalha?

Mais tarde os derrotados contaram que viram uma gigantesca imagem no Céu, sobre a frota da Liga Santa. Uma Senhora de aspecto majestoso e ameaçador, segundo eles. Ficaram aterrorizados durante a batalha.

Em Roma, o Santo Padre, o Papa Pio V aguardava ansioso notícias. Ele havia solicitado orações e jejuns pela vitória e instava para que monges, cardeais e demais fiéis fizessem estas obras piedosas nesta intenção. Confiava, sobretudo, na eficácia do Rosário. No dia 07 de outubro ele trabalhava com seu tesoureiro, Donato Cesi, que lhe expunha problemas financeiros. Subitamente afastou-se de seu interlocutor, abriu uma janela e entrou em êxtase. Minutos após, voltando-se para o tesoureiro, disse-lhe: “Ide com Deus. Agora não é hora de negócios, mas sim de dar graças a Jesus Cristo, pois nossa esquadra acaba de vencer”. Depois disso dirigiu-se à sua capela.

Somente duas semanas depois destes acontecimentos chegam as notícias confirmando a visão do Papa. Na noite entre os dias 21 para 22 de outubro o cardeal Rusticucci acordou o Papa para confirmar a sua visão. Num choro de júbilo Pio V repetiu as palavras do velho Simeão: “Agora podeis deixar o vosso servo, Senhor, ir em paz” (Lc. 2, 29).

Sobre Dom João d’Áustria Pio V também citou outro trecho do Evangelho: “Houve um homem enviado por Deus, cujo nome era João” (Jo. 1,6).

Logo se espalhou a notícia da vitória. O dia 07 de outubro ficou consagrado à Nossa Senhora da Vitória e mais tarde ao Santo Rosário.

Na ladainha lauretana ou ladainha de Nossa Senhora foi acrescentada a invocação que nascera pela voz popular no momento do grande feito: “Auxilium Crhistianorum”.

Capelas sob o patrocínio de Nossa Senhora das Vitórias começaram a surgir na Espanha e na Itália.

O Senado veneziano mandou escrever sob o quadro que representava a batalha o seguinte: “Non virtus, non arma, non duces, sed Maria Rosarii Victores nos fecit”, ou seja, em português: “Nem as tropas (ou as forças), nem as armas, nem os comandantes, mas Virgem Maria do Rosário é que nos deu a vitória”.

Também Gênova e outras cidades mandaram pintar em suas portas a efígie da Virgem do Rosário[9].

Talvez a sensibilidade moderna nos faça achar estranho a mistura de devoção com guerras. Não podemos deixar que a mentalidade do início do terceiro milênio julgue os feitos da metade do segundo. Outros tempos.

E, tratando de outros tempos, quando as notícias se espalhavam com dificuldade pela falta de internet, celulares, ou pelo menos, de um bom serviço de correios, é de se surpreender que apenas quatro anos após esta batalha em Chipre, aqui na longinqua Paranaguá já se estivesse erguendo uma igreja em honra da Virgem do Rosário.

A Capela de Nossa Senhora do Rosário no cenário eclesiástico

Como já vimos, foi com autorização do Bispado do Rio de Janeiro que iniciou-se a construção de Capela de Nossa Senhora do Rosário em Paranaguá. À época, então, Paranaguá estava sob a jurisdição da Diocese de São Sebastião do Rio de Janeiro.

Em 1745, em 06 de dezembro, pela Bula “Candor Lucis Aeternae”, o Papa Bento XIV criou a Diocese de São Paulo. Paranaguá passa a estar sob a jurisdição desta nova Diocese.

Anníbal Ribeiro Filho, Igreja de Nossa Senhora do Rosário, Diocese de Paranaguá, 1978, pp. 24.

“Na década de 1550, através de Ararapira e Superagüi, penetrando e navegando a vasta e bela baía de Paranaguá, as canoas vicentinas aportaram na ilha da Cotinga, próxima do continente. Admirados de ver em derredor muitas habitações de índios carijó, e receosos talvez de que lhe fizessem alguma traição, foram em direitura a ilha da Cotinga, para o lado do furado que a divide da ilha Rasa, onde principiaram as suas habitações. Primeira povoação foi na ilha da Cotinga, depois mudaram para o lugar da ribanceira onde ora está, talvez porque achassem o terreno mais apropriado para formarem a povoação, ser arenoso, ter uma formosa planície onde acharam uma fonte de água nativa e oferecendo o rio Taguaré um seguro fundeadouro, abrigado dos ventos e dos piratas em suas baías” (Antônio Vieira dos Santos,Memória Histórica de Paranaguá, Das Origens à Atualidade, V. II, Curitiba, Vicentina, 2001, p. 59).

Nascimento Júnior, História da Paróquia de N. Senhora do Rosário de Paranaguá, Inédito, in Ibid, p. 1.

Antônio Vieira dos Santos, Memória Histórica de Paranaguá, Das Origens à Atualidade, V. II, Curitiba, Vicentina, 2001, p. 43.

“Os cotinganos exploravam recôncavos, rios e sertões que circundam a baía, descobrindo, finalmente, ouro de lavagem nos vários rios que depois se chamaram rio dos Almeidas, rio dos Correias, rio Guaraguaçu, ficando conhecidas como minas de Paranaguá (Antônio Vieira dos Santos, Memória Histórica de Paranaguá, Das Origens à Atualidade, V. II, Curitiba, Vicentina, 2001, p. 59).

“As boas relações de amizades e de escambo com os carijó, provocaram o processo de povoamento das Ilhas, desembocaduras de rios, recôncavos… Porque desde 1554 já os santistas entretinham seu comércio marítimo com porto de Paranaguá, levando resgates de ferramentas, anzóis e fazendas que permutavam por algodão que os índios Carijó plantavam e colhiam e do Rio de Janeiro haveria também algum comércio” (Antônio Vieira dos Santos,Memória Histórica de Paranaguá, Das Origens à Atualidade, V. II, Curitiba, Vicentina, 2001, p. 59).

“Foi com autorização pois do Bispado do Rio de Janeiro que se construiu em Paranaguá a primeira Igreja dedicada ao culto de N. Senhora do Rosário no Brasil, e posteriormente levantadas as Igrejas de N. Senhora das Mercês na Cotinga em 1677; a de Nossa Senhora das Mercês na Gamboa em 1700; a do Bom Jesus dos Perdões, em 1711; a de N. Senhora do Terço, em 1739 e a de São Francisco das Chagas, em 1741, construída no local onde existia a Ermida de N. Sra. do Bom Sucesso” Anníbal Ribeiro Filho, Igreja de Nossa Senhora do Rosário, Diocese de Paranaguá, 1978, p. 1.

Cf. http://pt.wikipedia.org/wiki/Batalha_de_Lepanto

Cf. www.lepanto.com.br/EstLep.html